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Uma grande instalação artística prevista para um marco britânico levanta questões sobre o momento e o impacto.

Três pessoas investigam um mapa iluminado numa mesa ao ar livre, perto de um icónico relógio ao anoitecer.

C’est exactement ce qui se joue hoje em torno de uma instalação artística gigante prometida a um dos monumentos mais conhecidos do Reino Unido. A ideia é ambiciosa, fotogénica, pensada ao milímetro para as redes sociais. Mas surge num momento delicado, em que as cidades turísticas ainda procuram recuperar o fôlego, entre a crise do custo de vida, o sobreturismo e o cansaço local. Uns vêem aqui uma oportunidade económica; outros, uma jogada de comunicação mal calculada. Entre fascínio e saturação, a linha é ténue. E por trás das maquetes impecáveis escondem-se perguntas bem menos glamorosas: quem ganha, quem perde e a que preço para o próprio lugar? Os visitantes, esses, ainda não imaginam o debate que os espera. A trovoada aproxima-se, em surdina.

Quando um monumento se torna uma tela

É numa manhã cinzenta e húmida, tipicamente britânica, que as primeiras imagens da instalação começam a circular nos telemóveis. No ecrã, o monumento parece quase irreconhecível, envolto numa estrutura luminosa, monumental, quase líquida. As pessoas levantam os olhos do café, fazem zoom, suspiram, sorriem, por vezes franzem o sobrolho. A poucas centenas de metros do local, os comerciantes já comparam as renderizações 3D com os postais pendurados à entrada das lojas. A cidade parece subitamente mais pequena perante um projecto tão gigantesco. Um guia turístico chega a deixar escapar, em voz baixa: «Parece que o monumento está a tornar-se um cenário, em vez de um lugar.» Uma frase que fica na cabeça mais tempo do que se imagina.

Os promotores da instalação falam, por seu lado, de um “presente ao público” e de uma experiência imersiva capaz de atrair milhões de visitantes adicionais. Nos seus documentos, os números estalam: aumento previsto da afluência, impacto económico estimado, metros de cabos, toneladas de materiais, número de selfies esperados. A comparação com o “Wrapped Reichstag” de Christo, em Berlim, ou com os anéis luminosos na Torre Eiffel surge muito depressa, quase como uma fórmula mágica. Já circula uma anedota: um hoteleiro local teria recebido, num só dia, mais pedidos de reserva do que em todo um mês no ano passado. No papel, tudo parece alinhado. Na rua, sente-se, ainda assim, algo mais frágil: uma inquietação difusa, difícil de colocar numa folha de Excel.

O que irrita não é apenas a dimensão da obra. É o timing. O projecto está previsto para uma época alta já saturada, em que os autocarros de turistas avançam pára-choques com pára-choques. Os residentes receiam ficar presos entre barreiras de segurança, obras, filas de espera, música amplificada que transborda para as ruas adjacentes. Alguns autarcas apontam outro problema: a pressão sobre os transportes públicos, sobre os serviços municipais, sobre um centro da cidade que já tem dificuldade em absorver este excesso de pessoas e ruído. Sejamos honestos: quase ninguém lê os relatórios de impacto até ao fim. Ficam algumas promessas bonitas, algumas imagens espectaculares, e espera-se que corra bem. A cidade, essa, não tem esse luxo.

Ler o ambiente antes de acender as luzes

Para as equipas artísticas, o desafio não é apenas técnico. É quase um exercício de meteorologia emocional: captar o humor do lugar e de quem lá vive. Circula um método simples entre alguns curadores: chegar ao local sem crachá, sem apresentar o projecto, apenas para ouvir. Passar uma manhã no café, outra no mercado, observar como os habitantes falam do monumento quando ninguém lhes aponta um microfone. É um marco? Um símbolo? Um cenário de postal? Um ponto de encontro ao sábado? Esta fase discreta permite, muitas vezes, ajustar a trajectória: um calendário mal colocado, uma cenografia demasiado intrusiva, um som demasiado invasivo. O monumento, esse, não tem voz. As pessoas à volta têm.

Os erros mais frequentes surgem quando o projecto fala mais alto do que o lugar. Instalar uma obra gigantesca em plena época de comemoração, por exemplo, é como apontar um holofote para o sítio errado, na altura errada. Outra gafe clássica: subestimar o cansaço dos moradores, que já vivem com obras permanentes, turistas a entupir passeios, ruas fechadas “por razões de segurança”. Há vinte anos ainda não se falava de “fadiga turística”, mas o fenómeno já existia. Os artistas que melhor se safam são os que aceitam reduzir ambições em certos pontos: menos um dia de montagem, horários mais razoáveis, um raio sonoro menor. Não é uma concessão artística; é uma forma de cortesia urbana.

Alguns residentes resumem o debate numa frase, quase brutal:

«Não queremos impedir as pessoas de sonhar, só queremos conseguir dormir.»

Esta frase pode parecer anedótica, mas é, na verdade, um guia prático. Para uma instalação massiva encontrar o seu lugar, três perguntas simples valem muitas vezes mais do que um dossiê de 200 páginas:

  • O monumento continua legível, reconhecível, ou dissolve-se no efeito visual?
  • Os habitantes ganham alguma coisa, para lá de um “prestígio” abstracto?
  • O calendário respeita momentos sensíveis: exames, comemorações, picos de trânsito, festas locais?

Quando estes pontos ficam nebulosos, a conversa passa rapidamente para as redes sociais, com hashtags mais eficazes do que qualquer comunicado de imprensa.

O que este momento diz sobre a forma como usamos as cidades

No fundo, este projecto não fala apenas de arte. Revela uma questão mais ampla: a quem pertence realmente um monumento tornado marca global? Ao país, à cidade, aos residentes, aos turistas, aos parceiros privados que financiam a instalação? As grandes obras espectaculares transformam lugares em ecrãs, em fundos, em “spots”. Vai-se lá para cumprir uma checklist, para provar que se esteve, telemóvel na mão. O risco é o monumento se tornar secundário na sua própria história, como uma estrela relegada para actor secundário no seu próprio filme. A instalação é uma homenagem ou uma tomada de controlo temporária? A resposta nunca é totalmente neutra.

A temporalidade também conta. Um monumento vive séculos; uma instalação vive algumas semanas. Esta diferença de escala cria uma tensão discreta: deve aceitar-se um incómodo intenso mas breve em nome de um benefício supostamente duradouro? Os decisores falam muitas vezes de “legado”, palavra sedutora mas escorregadia. Que legado deixa um projecto efémero, para além das fotos e das memórias? Por vezes, é algo muito concreto: novos circuitos de visita, equipamentos que ficam, know-how técnico. Por vezes, é mais ambíguo: a sensação de que o local passa a estar disponível para todas as formas de encenação, como um estúdio ao ar livre. Uma vez aberta a porta, fechá-la torna-se complicado.

Resta a questão do impacto climático e logístico. As instalações massivas exigem materiais, transportes, energia, segurança, reforço de infra-estruturas. Raramente se fala de pegada carbónica nos comunicados triunfantes, embora seja um elemento-chave para um monumento por vezes já fragilizado pela erosão, pela poluição, pelo simples passar do tempo. A promessa de um “espectáculo visível do espaço” faz sonhar, mas tem um custo material muito terrestre. A cidade, o monumento e os residentes carregam esse custo tanto quanto os organizadores. E isso o público começa a sentir instintivamente, mesmo sem ler um único relatório técnico.

Uma história ainda em escrita

Este projecto de instalação gigante ainda nem ganhou forma e já as discussões são bem reais. Vêem-se petições a circular, cartas abertas, tribunas opostas a confrontarem-se com uma mistura de orgulho local e cansaço. Uns defendem com fervor a ideia de “trazer o monumento para o século XXI”; outros lembram que ele não precisou de LEDs nem de sensores para inspirar o mundo. Entre estas duas visões existe um espaço mais nuanceado, onde se reconhece simultaneamente o poder das grandes obras públicas e a necessidade de proteger a vida quotidiana que acontece à volta. Não é um debate teórico: é uma questão de passeios, de noites demasiado curtas, de fotos tiradas à pressa antes de chegar a multidão.

Esta história prende-nos porque condensa tensões que se encontram em todo o lado: entre espectáculo e intimidade, entre projecção internacional e fadiga local, entre inovação artística e simples necessidade de sossego. Pode-se gostar de arte monumental e sentir desconforto ao ver um monumento embrulhado como um produto. Pode-se ser turista num dia, residente no dia seguinte, e mudar de opinião conforme o ângulo com que se olha para a cidade. Os organizadores já prometem uma “experiência inesquecível”. Não estão errados: aconteça o que acontecer, este momento deixará marcas na memória colectiva do lugar. Resta saber se se falará de um golpe de génio ou de um ponto de viragem. E essa resposta não se lê nem nas maquetes, nem nos comunicados.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Timing frágil Instalação prevista em plena época alta, numa cidade já saturada Compreender por que razão um “bom projecto” pode cair mal na vida real
Vozes locais Habitantes divididos entre orgulho, cansaço e preocupação com o quotidiano Pôr-se no lugar de quem vive ao lado de locais emblemáticos
Monumento em tensão Símbolo nacional transformado em cenário temporário de alta visibilidade Reflectir sobre a linha entre homenagem artística e sobre-exploração de um sítio

FAQ:

  • Que monumento do Reino Unido está envolvido nesta instalação planeada? Os organizadores ainda não oficializaram tudo publicamente, mas trata-se de um monumento emblemático, imediatamente reconhecível a nível internacional.
  • Porque é que os locais estão preocupados com o timing? Porque o calendário coincide com um período já tenso: grande afluência turística, ruas congestionadas, serviços municipais sob pressão.
  • A instalação pretende ser permanente? Não. O projecto é apresentado como temporário, durante algumas semanas ou meses, embora os seus efeitos simbólicos possam durar muito mais.
  • Quais são os benefícios esperados para a zona? Os promotores apontam para um aumento de visitas, impacto económico para o comércio e visibilidade mediática mundial.
  • A opinião pública ainda pode influenciar o projecto? Sim. Nesta fase, a forma exacta, o calendário e a escala ainda podem evoluir sob a pressão do debate local e nacional.

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