A mulher à minha frente na biblioteca não estava a fazer scroll no Instagram.
Estava apenas… a olhar fixamente para um Google Doc em branco.
O cursor piscava como um pequeno alarme.
A mão ia ao telemóvel, depois voltava ao teclado, depois à garrafa de água.
Três respirações fundas. Nenhuma palavra.
Ao fim de alguns minutos, sussurrou para si, quase irritada:
“EU TENHO de terminar este relatório hoje.”
Nada aconteceu. Só mais piscadelas.
Depois, algo pequeno mudou.
Suspirou, endireitou-se e murmurou: “Ok. Vamos só escrever um parágrafo todo desarrumado sobre a introdução.”
Os ombros baixaram. Os dedos começaram a mexer. Em dez minutos, estava a escrever como alguém em cima do prazo.
A mesma pessoa. A mesma tarefa.
Só a instrução que deu a si própria tinha mudado.
Porque é que a forma como falas contigo, em silêncio, mata o teu embalo
A maioria das pessoas acha que a procrastinação é um problema de força de vontade.
Muitas vezes, é um problema de formulação.
Damos ordens a nós próprios como um chefe rabugento:
“Tenho de limpar o apartamento.”
“Devia responder a todos os e-mails.”
“Tenho de ir correr.”
E depois ficamos surpreendidos quando o cérebro reage exatamente como um empregado irritado e foge para o TikTok.
Numa terça-feira tranquila, observei isto no meu próprio dia.
Sempre que dizia “tenho de…”, o meu corpo ficava tenso.
Ombros levantados, maxilar apertado, um nózinho no estômago.
Zero vontade de começar.
A instrução parece pequena.
A reação não é.
Aqui está a parte estranha: essa tensão nem sempre aparece como drama.
Não é só “estou completamente sobrecarregado”.
Às vezes é uma evitamento suave e escorregadio.
Abres um separador para trabalhar e “só rapidinho” vais ver uma coisa.
Planeias fazer uma chamada e acabas a reorganizar ícones no telemóvel.
No papel, tinhas tempo.
Na tua cabeça, a tarefa parecia uma ordem com ameaça por trás.
Um estudo da Universidade de Rochester sobre autodeterminação concluiu que, quando nos sentimos forçados a uma tarefa, a motivação desce a pique, mesmo quando a tarefa nos é útil.
O nosso cérebro está programado para defender a sensação de escolha.
Por isso, quando dizes a ti próprio “tens de”, “deves”, “és obrigado a”, começa uma rebelião silenciosa.
Não és preguiçoso.
Estás a resistir à sensação de seres controlado - mesmo quando és tu a dar as ordens.
A pequena mudança de linguagem que desbloqueia a ação
A mudança é simples:
Passa de ordens para instruções colaborativas.
Em vez de: “Tenho de escrever este relatório.”
Experimenta: “Deixa-me ajudar-me a escrever a primeira versão rascunhada deste relatório.”
Ou ainda mais simples: “Vamos escrever uma primeira página muito má.”
Parece quase infantil.
Mas muda a relação instantaneamente.
Deixas de ser o sargento-instrutor e passas a ser o colega de equipa.
Num domingo chuvoso, um amigo meu, o Tom, tinha uma tarefa simples: enviar um e-mail de três linhas ao chefe.
Andava a adiar há quatro dias.
Ele repetia para si: “Tens de deixar de ser ridículo e enviar este e-mail.”
Então abria a caixa de entrada… e, magicamente, lembrava-se de que as plantas precisavam de água.
Clássico.
Fizemos uma experiência.
Ele sussurrou: “Ok, vamos só abrir um rascunho e escrever a primeira versão feia deste e-mail. Não enviar. Só rascunhar.”
Sem pressão. Sem julgamento.
Abriu o rascunho. Escreveu a versão “feia” em 90 segundos.
Depois riu-se e disse: “Honestamente, isto está bem; vou só enviar.”
Quatro dias de procrastinação derreteram com uma instrução mais suave.
Isto não é enganares-te com positividade falsa.
É sobre como o teu sistema nervoso reage ao tom.
Quando dizes “tenho de acabar isto hoje à noite”, o teu cérebro ouve risco, falhanço, uma ameaça invisível.
As exigências parecem altíssimas, e o corpo procura uma saída.
YouTube. Snacks. Limpezas aleatórias.
Quando dizes “vamos dar a mim próprio 15 minutos para começar isto e ver como corre”, a ameaça desvanece.
Continua a haver esforço, mas a aresta suaviza.
Menos ameaça significa menos resistência.
Essa micro-mudança de “tenho de” para “vamos ajudar-me…” ou “vou tentar…” devolve-te a sensação de agência.
Passas a ser o aliado, não o inimigo.
E aliados fazem as coisas acontecer.
Como reescrever as tuas auto-instruções em tempo real
Aqui vai um método prático para usares hoje:
Apanhar → Traduzir → Encolher.
1. Apanha a ordem.
Repara em frases como “eu tenho de”, “eu devo”, “eu preciso de”.
Sem julgamento, só um destaque mental.
2. Traduz para uma frase cooperativa.
Troca por “vamos…”, “vou ajudar-me a…”, ou “vou dar a mim próprio 10 minutos para…”.
Mantém um tom conversacional, como falarias com um amigo cansado mas disponível.
3. Encolhe a tarefa para um movimento de arranque.
Não “escrever o artigo”, mas “abrir o documento e escrever três tópicos mal amanhados”.
Não “limpar a cozinha”, mas “pôr toda a loiça no lava-loiça e abrir a água quente”.
Podes acordar a pensar: “Eu já devia ter feito isto tudo.”
O teu cérebro arquiva o dia em “falhei antes do pequeno-almoço”.
A partir daí, fazer scroll parece mais seguro do que tentar.
Em vez disso, podes encontrar-te onde realmente estás.
“Ok, vamos só vestir-nos e abrir o portátil. Só isso.”
Quando o portátil estiver aberto: “Vamos responder a um e-mail fácil.”
Instruções pequenas, gentis, com direção.
Sejamos honestos: ninguém vive como um robô de produtividade que “ganha a manhã” todos os dias.
Nalgumas manhãs, a vitória é simplesmente não desistires de ti.
“A linguagem não é apenas descritiva; é generativa. A forma como falas contigo não se limita a relatar a tua realidade - constrói-a em silêncio.”
O teu cérebro está sempre a ouvir, não só quando dizes algo dramático em voz alta.
O tom subtil da tua voz interior molda a textura emocional do teu dia.
- Experimenta estas trocas esta semana:
- “Tenho de acabar isto” → “Vamos ajudar-me a avançar nisto durante 20 minutos.”
- “Devia limpar” → “Vou tornar este quarto 10% melhor nos próximos 5 minutos.”
- “Tenho de deixar de ser preguiçoso” → “Estou cansado, mas ainda consigo dar um pequeno passo.”
Repara em que frases fazem os teus ombros baixar em vez de subir.
São essas as que vale a pena manter.
O efeito dominó silencioso quando mudas o guião
Quando começas a ajustar a forma como te dás instruções, acontece algo interessante.
As tarefas deixam de parecer veredictos sobre o teu caráter.
“Eu não fiz” já não significa “eu não presto”.
Passa a significar “a forma como enquadrei isto hoje não funcionou para mim”.
Isso é um problema com o qual podes experimentar, não um fracasso pessoal.
Podes descobrir que certos tipos de formulação te desbloqueiam mais depressa.
Algumas pessoas respondem a “Vamos só explorar isto um bocadinho.”
Outras gostam de “Vou ajudar o Eu do futuro fazendo agora os primeiros 10%.”
Torna-se uma conversa viva, em vez de um julgamento.
Numa noite, num comboio cheio, vi um estudante abrir o caderno, olhar, e fechá-lo outra vez.
Fez isto três vezes.
À quarta, ouvi-o murmurar: “Ok. Vamos só fazer o esquema da primeira pergunta para eu não ter de pensar nisso mais tarde.”
Desta vez, manteve o caderno aberto.
A caneta mexeu-se.
A cara relaxou naquele micro-movimento quase invisível que as pessoas fazem quando finalmente começam.
Todos já vivemos aquele momento em que começar parecia empurrar um carro morro acima.
E depois uma pequena mudança - como enquadrámos, onde nos sentámos, as palavras que usamos - de repente fez parecer que o morro ficou mais curto.
Quanto mais vezes usas instruções cooperativas e específicas, mais o teu cérebro aprende uma associação nova:
Auto-fala = apoio, não ataque.
A partir daí, aparecer deixa de ser “forçar-te” e passa a ser caminhar ao teu lado.
Não precisas de uma nova app nem de uma rotina matinal dramática para isto.
Só frases ligeiramente diferentes, repetidas em silêncio, até se tornarem o novo normal.
| Ponto-chave | Detalhe | Benefício para o leitor |
|---|---|---|
| Passar de ordens a convites | Substituir “tenho de / devo” por “vamos… / vou ajudar-me…” | Reduz a resistência e a sensação de pressão |
| Encolher tarefas | Transformar grandes obrigações em micro-arranques concretos | Torna o primeiro passo muito mais acessível |
| Observar a reação do corpo | Identificar que frases relaxam (ou tensionam) fisicamente | Permite ajustar uma linguagem realmente adequada a ti |
FAQ
Isto não é apenas “pensamento positivo” com mais passos?
Não exatamente. Não se trata de fingir que tudo é divertido. Trata-se de retirar ameaça desnecessária das tuas instruções para que o teu sistema nervoso consiga tolerar o início.E se os meus prazos forem reais e urgentes?
Ainda mais razão para escolher linguagem que te mantenha funcional. Podes dizer: “Isto vence hoje. Vamos dar-lhe agora 20 minutos focados para tirar o primeiro rascunho.”Isto funciona se eu tiver PHDA (TDAH) ou procrastinação crónica?
Não vai resolver tudo por magia, mas muitas pessoas com PHDA relatam que instruções mais gentis e claras facilitam começar tarefas que andavam a evitar.Quanto tempo até esta nova auto-fala parecer natural?
Muitas vezes, alguns dias de prática consciente. Ao início, parece estranho ou lamechas; depois o teu cérebro começa a esperar este novo tom e torna-se o padrão.E se a auto-fala dura sempre “funcionou” comigo?
Pode ter produzido resultados, mas provavelmente com um custo elevado em stress e autoestima. Esta mudança permite continuares a fazer coisas sem queimar, até ao chão, a tua relação contigo próprio.
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