Bom trabalho, dois adolescentes, uma hipoteca quase paga. Do lado de fora, a vida dela parece “arrumada”. Por dentro, sente como se alguém tivesse carregado em pausa. Está a cumprir etapas, não está a viver.
“É só isto?”, pergunta ela, olhos vermelhos mas voz calma. Não é uma crise. É apenas uma pergunta silenciosa e pesada.
A psicóloga não fala de vitaminas, ioga ou “pensar positivo”. Fala de como a mulher foi treinada a pensar sobre o tempo, o sucesso e sobre si própria. Explica que, por volta desta idade, tende a surgir uma forma diferente de olhar para a vida. E que, para muitas pessoas, é aí que começa uma fase mais profunda e, surpreendentemente, mais serena.
Depois, diz uma frase que muda toda a conversa.
Quando a vida deixa de ser uma corrida e passa a ser uma escolha
A psicóloga explica que a fase mais gratificante da vida muitas vezes começa quando as pessoas deixam de pensar em termos de “primeira metade / segunda metade” e passam a pensar em termos de “este capítulo, agora”.
Não “tenho 40, já devia ter feito X”, mas “hoje, com o que sei e com o que vivi, como é que quero que seja o próximo pequeno capítulo?”
Parece quase simples demais. No entanto, quebra o guião invisível que muitos de nós carregamos desde a infância: escola, trabalho, casal, filhos, casa, reforma e depois… silêncio.
Quando as pessoas deixam de ver a vida como uma linha reta e começam a tratá-la como uma série de estações, a pressão desce. A curiosidade volta.
Um dos pacientes da terapeuta, um ex-diretor comercial de 52 anos, passou anos a dizer: “É tarde demais, perdi a minha oportunidade.”
Sonhava trabalhar na natureza, mas ficou em escritórios “porque é isso que os adultos fazem”. Depois de um susto de saúde, começou a pensar em capítulos em vez de destino. Não “uma nova carreira para sempre”, apenas: “E se os próximos 5 anos fossem o meu ‘capítulo ao ar livre’?”
Requalificou-se como jardineiro de espaços públicos. O salário desceu, o sentido de estar vivo aumentou. Disse à psicóloga, meio a rir, meio a chorar: “Não estou a viver o meu Plano B, finalmente estou no Capítulo 3.”
A investigação sobre aquilo a que os psicólogos chamam “a curva em U da felicidade” mostra um padrão bastante claro. Muitas pessoas atingem um ponto baixo nos 40. As expectativas e a realidade chocam uma contra a outra.
Depois, algo muda. Nem sempre de forma ruidosa. As pessoas começam a comparar-se menos com os outros e mais com os próprios valores. Passam a focar-se menos em “O que é que eu alcanço?” e mais em “Como é que eu quero viver?”
Esta mudança mental não apaga magicamente os problemas. Mas altera o peso de cada decisão. A vida parece menos uma sentença e mais uma experiência. É aí que, muitas vezes, a fase gratificante começa discretamente.
Como começar a pensar em “capítulos” em vez de “penas de vida”
A psicóloga convida os seus pacientes a experimentar um exercício mental concreto: dar um nome à fase atual da vida como se fosse um capítulo de um livro.
Nada de poético, apenas honesto. “O ano em que deixei de fingir que estava bem.” “Aprender a estar sozinho sem me sentir só.” “Reconstruir o meu corpo depois de um burnout.”
Escrever esse título no papel muda o cérebro do julgamento para a narrativa. Passa-se de “estou a falhar” para “estou a meio de uma história”. E uma história pode evoluir.
Ao nível prático, ela sugere definir “objetivos de capítulo”, não “objetivos de vida”. De seis a dezoito meses, não mais. Apenas uma ou duas intenções. Por exemplo: “Este capítulo é sobre voltar a ligar-me ao meu corpo um pouco todas as semanas.”
Numa boa semana, isso pode ser uma caminhada longa. Numa má semana, são cinco minutos de alongamentos à frente de uma série parva. Conta na mesma. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
O que desvia muita gente do caminho é o jogo silencioso da comparação. Percorrer as redes sociais a ver os “capítulos perfeitos” dos outros e concluir que o nosso é patético.
A psicóloga vê os estragos todas as semanas no consultório. As pessoas acham que estão atrasadas, erradas, para trás. Esquecem-se de que, por trás de cada fotografia brilhante, também há consultas médicas, contas por pagar e noites passadas a olhar para o teto.
Ela encoraja uma regra muito simples: se um pensamento começa com “Nesta idade eu já devia ter…”, trate-o como spam. Não como verdade. Como um guião antigo que não foi você que escreveu.
Depois acrescenta outra: fale consigo como falaria com um amigo próximo a passar pelo mesmo capítulo. Somos brutais connosco, ternos com os outros. Essa divisão drena muita alegria.
Uma frase que ela repete muitas vezes fica com os pacientes:
“No momento em que deixas de perguntar ‘O que é que as pessoas esperam de mim?’ e começas a perguntar ‘O que é que agora parece verdadeiro para mim?’, a tua vida adulta de verdade começa.”
Para ajudar a ancorar esta mudança, ela dá uma ferramenta pequena, quase infantil.
- Escreva num post-it: “Isto é só um capítulo, não é o livro inteiro.”
- Cole-o no portátil, no espelho da casa de banho ou dentro da carteira.
- Cada vez que o ler, expire devagar. Deixe os ombros baixar um pouco.
- Pergunte-se: “Se isto é só um capítulo, que pequeno passo faz sentido aqui?”
Parece ingénuo. Para algumas pessoas, é a primeira vez em anos que falam consigo próprias com um pouco de suavidade.
Sinais de que a sua fase mais gratificante pode já estar a começar
Acontece algo interessante quando as pessoas começam a pensar em capítulos e não em pontuações finais. Ficam um pouco menos impressionadas com rótulos externos.
Promoções, grandes compras, aprovação social ainda sabem bem. Só deixam de ser o combustível principal. O verdadeiro entusiasmo começa a vir da coerência interna: aquele “sim” calmo e silencioso - “isto combina com quem eu sou agora”.
Muitos descrevem um novo prazer em escolhas pequenas, quase invisíveis. Dizer não a um jantar que não querem, mesmo que desaponte alguém. Sair de um grupo de WhatsApp que só traz stress. Ir a pé para casa devagar em vez de correr para ser “produtivo”.
Num dia mau, parece que não é nada. Num horizonte temporal suficientemente longo, é uma revolução. Num horizonte de uma vida humana, é muitas vezes aí que a alegria mais enraizada começa a crescer.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque é importante para os leitores |
|---|---|---|
| Dê um nome ao seu capítulo de vida atual | Escreva um título curto e honesto para esta fase (ex.: “Aprender a viver mais devagar”, “O ano em que me reconstruo depois da perda”). Mantenha-o visível durante algumas semanas. | Cria distância emocional em relação às dificuldades e transforma o caos numa história que está ativamente a viver, e não apenas a suportar. |
| Defina “objetivos de capítulo” de 6–18 meses | Escolha apenas uma ou duas intenções (saúde, relações, criatividade), enquadradas como experiências, não como ultimatos. | Reduz a sensação de sobrecarga e ajuda-o a ver progresso real, mais motivador do que promessas vagas de “um dia vou mudar”. |
| Troque a comparação pela curiosidade | Quando notar que se está a comparar com os outros, pergunte “Do que é que eu estou realmente a precisar agora?” em vez de “O que é que eles têm que eu não tenho?”. | Transforma a inveja em informação, para ajustar o seu próprio capítulo em vez de se sentir permanentemente para trás. |
FAQ
Com que idade começa normalmente esta “fase mais gratificante”?
Os psicólogos observam muitas vezes uma mudança clara algures entre o final dos 30 e o início dos 50, quando as pessoas começam a questionar guiões antigos. Ainda assim, tem menos a ver com a idade e mais com o momento em que começa a perguntar: “O que é que, agora, realmente faz sentido para mim?” Algumas pessoas nunca chegam a fazer essa pergunta; outras são empurradas para ela de forma brusca após uma separação, um burnout ou um susto de saúde.E se a minha vida estiver um caos, isto ainda se aplica a mim?
Sim. A mentalidade de “capítulos” é particularmente útil quando tudo parece instável. Dar um nome à fase em que está (“sobreviver com um recém-nascido”, “cuidar dos meus pais”) ajuda a parar de esperar que funcione como funcionava há cinco anos. Depois, pode escolher uma intenção muito pequena e realista que respeite os seus limites atuais.Como sei se estou preso a um guião antigo?
Esteja atento a frases na sua cabeça que soem a professor ou a pai/mãe: “Nesta altura já devias…”, “Pessoas da tua idade não…”, “Um adulto a sério fazia…”. Normalmente são vozes aprendidas, não a sua. Quando aparecerem, tente acrescentar: “Segundo quem?” É uma forma simples de abrir uma pequena brecha e ouvir a sua perspetiva por baixo disso.Pensar em “capítulos” não é só uma forma de evitar responsabilidade?
Pode ser, se for usado como desculpa para nunca se comprometer com nada. Em terapia, usa-se no sentido oposto: como ferramenta para assumir mais responsabilidade sobre aquilo que realmente pode influenciar nos próximos meses, em vez de se sentir esmagado por tudo o que não pode. A responsabilidade torna-se específica e à escala humana, não abstrata e impossível.E se eu não souber o que quero para o meu próximo capítulo?
Isso é extremamente comum. Comece pelo que sabe que o cansa: pressa constante, dizer sim a tudo, fingir que está bem. Depois faça pequenas experiências - por exemplo, proteger uma hora tranquila por semana ou dizer não a um pedido pequeno. O desejo costuma aparecer depois de haver algum espaço, não antes.
Num autocarro, em jantares de família, nas copas dos escritórios, quase se sente quando as pessoas entram nesta nova forma de pensar. O tom muda. Menos exibicionismo, mais “isto é o que realmente me importa agora”.
Todos já vivemos aquele momento em que olhamos à volta e nos perguntamos de quem é, afinal, a vida que estamos a viver. Para uns, é uma racha assustadora na parede. Para outros, é a primeira janela a abrir.
A psicóloga, no seu pequeno consultório, vê isso todas as semanas: os ombros a relaxarem quando alguém percebe que a sua história não acabou - está apenas a ser editada. A gargalhada que vem depois das lágrimas quando dizem em voz alta o título do seu capítulo. A mistura de medo e alívio quando ousam querer algo diferente, mesmo que em silêncio.
A fase mais gratificante da vida não chega com fogo de artifício nem com um plano perfeito. Entra de mansinho quando deixamos de tratar a nossa existência como uma sentença e passamos a tratá-la como uma série de capítulos honestos e vivos. A pergunta que fica no ar é simples e um pouco inquietante: se isto é apenas um capítulo, o que é que você quer realmente escrever nele a seguir?
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